No ônibus do Rio para São Paulo, uma quarta feira, 7hs, dois jovens casais de chineses e dois rapazes nigerianos. Os coreanos, poltronas da frente. Os nigerianos, do fundo. Não falam português. Nem os asiáticos. Nem os africanos.
Ilana pergunta: como sabe que são coreanos?
Eu me pergunto: como sei que são nigerianos?
Para quem passou até agora 22 anos na Aclimação, 22 anos com interrupções, faz parte da cultura da intuição, digamos assim, saber a diferença entre chineses, japoneses e coreanos, sobretudo se não falam o português.
Não se trata de nenhuma fórmula lógica, mas simplesmente se sabe, seja pela sonoridade ao falarem, seja por alguns dados de aparência, que não serão aqui colocados, porque, no fundo, são dados apreendidos de forma sensorial, não com os extremos generalizantes da racionalidade.
São chineses, sem dúvida, resposta a Ilana.
Ajuda a identificação de origem o fato de nos últimos anos ter percebido a explicitação da presença chinesa no Rio. Mal falam o português. Costumam ser encontrados, por mim pelo menos, em lojas de suco e de acaí. E em uma pastelaria em frente ao Espaço Unibanco de Cinema em Botafogo.
Já os nigerianos, falavam uma língua estranha a mim, mas, eventualmente, passavam para o inglês. Como também já havia lido sobre o trânsito de nigerianos na ponte rodoviária, como já havia presenciado nigerianos nesse percurso de cá para lá e de lá para cá, supus sem questionar:
São nigerianos.
E deveriam ser mesmo.
No metrô em São Paulo, na Tiradentes, entram quatro coreanos. Nenhum fala o português. Falam alto, rápido, são exteriorizados, um de cabeço em pé e todo desfiado, ocidentais até as unhas dos pés, mas coreanos.
Se entraram na Tiradentes, suponho, são lá do Bom Retiro, antigo espaço dos judeus da área de tecidos, hoje ocupado por coreanos e bolivianos, esses, segundo se denuncia constantemente, mão de obra escrava na tecelagem.
Na Liberdade, entra um grupo de adolescentes, mocinhas, umas mais cheinhas, outras mais formosas, uma delas líder da turma, a mais produzida, de calça justa, botinha e cabelos jogados nos olhos, lisos e negros, pintados certamente, em um estilo meio mangá.
É morena. Pode ser mineira, goiana, matogrossense, carioca, do litoral ou do agreste, do sertão ou do urbanidade sem mar, bem brasileira, de qualquer forma, se pensarmos na brasilidade feminina estereotipável.
Se entrou na Liberdade, suponho que lá estuda, porque entrou de mochila, atitude alegre de quem encerrou dever com as aulas, isso por volta de 13h15.
Se estuda na Liberdade, supus, copiou o cabelo de alguma japonesa, ou é fã de mangá, porque nessa idade a cópia é uma afirmação de pertencimento. Importante escolher, entre tantos modelos, quem se copia.
Ao estilo Antônia, ela e amigas cantam Shakira, pop latino de maior apelo no fim dos 90.
Nipolatina do agreste urbano.
Poderia ser o nome da bandinha dela, da líder da turminha, mas, claro, talvez ela nem pense em ser cantora, talvez seja apenas mais uma paulistana, mais uma imagem nessa cidade de tantas imagens, imagens distintas, imagens em convivência.
Para não paracer um ET, algumas informações:
Sem carro, sem muito deslocamento, sem congestionamentos, residência próxima ao metrô Ana Rosa, proximidade do Parque da Aclimação, prédio do Niemayer, vizinho da melhor pizza de marguerita da face da Terra, 20 e poucos reais, com o tomate por baixo da mussarela, sem palavras.
Se muitos, com razão, bufam, por aqui, não sem razão, encanta-se. Encanto-me. Em meu canto.
Deslocamento. Deslocar-se. Des local.
Diferenças de locais:
Filmes ambientados no Rio, quando alguém morre, morre por questões "sociais": tráfico, diferença de classes, coisas assim
Filmes ambientados em SP, quando alguém morre, dinheiro e classe não é questão: a questão está emuma patologia qualquer, do tipo Isabella, mas não tão ficional assim, ou morre em carro ou por carro.
Primeiro caso: Um Céu de Estrelas: ex-noiva de partida para Miami mata ex-noivo que matara sua mãe
Segundo Caso: Em Trânsito (Henri Gervasseau), Os 12 Trabalhos (Ricardo Elias), Não por Acaso (Philippe Barcinsky), Bodas de Papel (André Sturm), Via Láctea (Lina Chamie).
Uma entre exceções possíveis: De Passagem (Ricardo Elias), no qual o adolescente, já morto no começo do filme, morre por mãos bandidas.
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